sábado, 16 de maio de 2009

Viagem ao Porto

Depois de um interregno de algumas semanas para se matar a cabeça com outras coisas, cá estamos nós de volta. E da melhor maneira: cheios de praia e bicharada!

A "mãe Xana" fugiu-nos na sexta-feira à tarde e rumou a Vila Real para um reencontro com UTADinos desaparecidos em combate. Nós por cá ficámos a curtir o espaço a mais na cama, que diga-se de passagem, a Ariana fez questão de ocupar em proporções duplicadas (Xana, volta, tás perdoada!). Ficámos de ir ter ao Porto hoje para um encontro imediato com a famosa parelha circense Di-Dri (veneninho :). E lá fomos para que a Ariana conhecesse a Dri e reencontrasse a Di.

Às 6 da manhã já estava eu a pé porque o sono se cansou de me manter na horizontal. Curiosamente à mesma hora estava a Xana a deitar-se. Portanto, podemos olhar para a coisa mais ou menos como uma mudança de turno. Às 7 comecei a "picar" o bicho mau a ver se arrebitava e se se voltava para o mundo dos acordados. Comeu o pequeno almoço como de costume, meio a dormir, meio adormecida e depois do festival circense que costuma ser o processo de lhe vestir a roupa lá fomos apanhar o 1º comboio do dia.

Lamarosa, Entroncamento foi um instante e com o entusiasmo normal de uma criança que sabe que dali a algumas horas vai pôr os pés na areia da praia. Nestes casos, o facto de ter tido ontem um dia de correrias em casa dos avós, de se ter deitado tarde e acordado muito cedo é sempre secundário. No Entroncamento tomámos o 2º pequeno almoço enquanto esperávamos que chegasse o 2º comboio do dia. Alfa-Pendular, Entroncamento-Espinho. Um mimo, diga-se de passagem. O sorriso da miúda era aquele de quem ganhou um brinquedo novo. Refastelada nos enormes bancos com as pernas a balançar e os olhos brilhantes a vaguear pelas novidades banais de um comboio moderno: cabides rebativeis, persiana elétrica, canais de música com phones, apoios para os pés (para quem lá chega com as pernas que, apesar de se ter esticado, não é o caso dela), mesa-tabuleiro de proporções avantajadas, espaço entre bancos em versão diferente daquela para anões presente nos Intercidades), e claro, a maravilha da televisão! Experimentou tudo, à excepção dos phones. É que apesar de termos gasto quase 20 euros no bilhete ninguém se lembrou de o pedir e de trazer os phones. Para a próxima guarda-se a nota.

Espinho! Perna fora do comboio e passo entusiasmado. Ainda perguntou onde estava a praia, estranhando o facto de só ver prédios mas quando viu uma coisa azulada lá ao fundo por entre os mamarrachos espinhenses lá se pôs com aqueles modos de provinciana de 80 anos que nunca viu a praia senão nas fotos a preto-e-branco do jornal lá da terra. Chegados ao muro que limita a praia, estica-se a cachopa em jeitos de se acimar dele como se não chegasse a altura que tem para ver as vistas. Depois da foto da praxe lá se pôs no equilibrismo do costume em cima dos muros até que de repente, se lembra de descer. À minha pergunta: "então? não queres andar mais em cima do muro?", responde-me com um tom adulto: "não pai! porque pode haver pessoas que se querem sentar aqui e depois ficam sujas por causa dos meus pés!" Ora toma, embrulha e oferece no próximo Natal a quem te der mais jeito.

Chegados à praia, como é óbvio perdi-a de vista (jeito de dizer, claro!). Correu desenfreadamente pela areia, fujiu do mar, subiu e desceu as rochas com um destemido equilibrismo que não eu não conhecia, apanhou conchas, perdeu conchas, mexeu, viu, espreitou, comeu e bebeu praia e matou saudades. Sentámo-nos então um bocado nas rochas perto dos salpicos das ondas a ver o mar ao longe. Saiu uma foto de "caretas" porque são das poucas que a fazem ter disposição para ser fotografada. A custo, lá voltámos à estação para o 3º comboio do dia: Espinho-Porto.

Chegados à invicta (só de nome, porque lembro-me bem de terem levado 4 do Arsenal. Tanto veneno... :)congratulou-se com o facto de já "ser crescida" porque segundo a senhora da Loja Andante aos 4 anos já se tem que pagar. Congratulou-se ela apenas. Porque nem eu nem a minha carteira acharam muita piada. Tanto que, lá mais para o fim do dia, na viagem de regresso quando voltaram a perguntar-me a idade dela disse que tinha 3! Não! Ia pagar mais sei lá quanto para andar num pseudo-metro que nem sequer andar debaixo do chão! Mas complexos de inferioridade nortenhos à parte (beba da água quem tiver sede), o que importa é que chegámos ao São João depois de andar no 4º e 5º "comboio" do dia para regojizo da pequena. São João hospital claro, nada de martelinhos.

Aí chegados apanhamos a seca das nossas vidas num autocarro que liga o Hospital de São João ao Zoo da Maia numa tal enfadonhice que quase perdi a vontade de fazer o que quer que seja. A Ariana chegou mesmo a adormecer a 5m de chegarmos (sabia lá ela). Mas quando a tirei do autocarro, a sentei no muro da entrada e lhe disse que já estava a ver uma Zebra passou-lhe o efeito do hipnótico natural, arregalou os olhos e injectou-se de adrenalina para ir dar como achado o tal cavalo em pijama.

Entrámos e começou a correria. Acordou às 7? Estava a dormir há 10m atrás? Está cansada? Está na hora do almoço? E então? A avestruz que o diga, que àquele stress de viver encarcerada teve que juntar o de aturar um diabrete de 4 anos a correr de um lado para o outro em frente à rede. Só a conseguiu demover do corropio depois de começar a dar bicadas na rede. Como um bico de avestruz mete um certo respeito, a Ariana lá achou melhor acalmar. Seguiu uma catrefada de bichos que já toda a gente viu mas que para uma criança é sempre "um mundo". Foram vários felinos, uns quantos primatas, passarada vária e um ou outro bicho estranho, mas o que lhe fez mais arregalar os olhos foram os que eu já esperava. O pachorrento hipopotamo, a foca, os cangurus, os cavalos em pijama e a única coisa que mexeu comigo: o lince.

Mexeu comigo por duas razões. Primeiro porque não me lembro de alguma vez ter visto um animal tão espectacular. Depois porque quando me aproximei um pouco de mais para tirar foto o rapaz lembrou-se de rugir forte e lançar a pata por entre a rede. A probabilidade da pata dele caber e encaixar na perfeição naquele intervalo de rede de forma a conseguir esticar as unhas uns 15cm cá para fora é reduzida. Mas reduzida, não quer dizer nula. Enquanto eu recuperava o ritmo cardíaco normal a Ariana ia-me ajudando a constatar o óbvio: "ó pai acho que é melhor não fazeres isso outra vez. Ele se calhar está chateado!". Acabou por ser impossível tirar-lhe fotos não desfocadas tal era a inquietude. Achei melhor pôr de lado o egoísmo da contemplação e deixá-lo sossegado na sua triste existência encarcerada.


Depois de mais uns corropios e mais uns animais, fomos ao almoço. Um triste prego no prato que só não foi parar ao livro de reclamações porque para perder tempo tinhamos os atrasos nos comboios, as informações incorrectas sobre transportes dadas pelos transeuntes no Porto, ou a visita ao reptiliário que havíamos de fazer a seguir. Logo à partida é estranho que vejam animais mortos num local onde supostamente apregoam haver um propósito educativo. Não sei o que é que se promove de bom nas crianças ao mostrar-lhe aranhas e reptéis mortos dentro de aquários de vidro, mas cada um tem as suas noções retorcidas.

Para não perdermos muito tempo a falar do que não merece, digamos apenas que os Zoos são por definição coisas do mais mau que há e que o da Maia consegue ir um pouco mais além do mau. Eu sei, nós fomos lá! Somos culpados de contribuir para a existência dele. Mas fomos para não morrer parvos e para ter uma opinião que não se baseie no diz que disse e para mostrar à Ariana coisas que não vê em mais lado nenhum. De resto o meu conselho é simples, não ponham lá os pés nem incentivem ninguém a fazê-lo.

Se por algum motivo quiserem ou tiverem que fazê-lo mantenham viva na cabeça das crianças a consciência de que aqueles animais apenas estão ali porque não têm condições de sobreviver em estado selvagem. Onde é o lugar deles!! Por exemplo um animal que se chega aos limites da jaula quando se aproximam pessoas não estará propriamente nas melhores condições para enfrentar os desafios da vida selvagem. Está mais inprintado que o capitão américa do CERAS. Mas adiante...

Regressámos ao Porto para encontrar finalmente a Xana, a dupla circerse Di-Dri. Fizemo-lo no 6º e 7º comboio do dia. Garanto eu, porque a Ariana entretanto já tinha perdido a conta. Depois do reencontro hollywoodesco com a mãe e do derreter da vergonha com as restantes companhias seguiu-se um gelado no shopping que ficou a meio. O dela e o meu também, porque gelado doce é diferente de açúcar gelado e quando tendem a confundir as coisas eu por norma digo não obrigado. Enganaram-me só nas primeiras 10 colheres.

A Ariana recebeu uma prenda do tamanho da mesa mas insistiu em não abrir : "só quero abrir em casa". Nem meio mundo de insistência e meia hora de teimosia demoveram a rapariga. Vá-se lá saber quem é que lhe meteu na cabeça esta ideia de abrir as prendas só em casa. Manias. Despedimo-nos da Dionisia e da Adriana e do Luís (agora sim sem nomes artísticos), sem que a catraia se convencesse que tinha que abrir a prenda ali no Norte. Seguimos então no 8º comboio do dia até Campanhã para apanhar o 9º e último comboio diário. Já encaixados nos bancos a Ariana aterrou na horizontal para acordar só algumas centenas de km depois. A Xana passou pelas brasas, mas acabou por não se "queimar" muito.

Chegada a casa a Ariana lá abriu finalmente a prenda. Uma tabela de basket! Não foi novidade. Adivinhámos entretanto durante a viagem para Campanhã pelo formato da coisa. A Ariana é que ficou espantada e lá fez o seu sorriso malandro ao espreitar para dentro do embrulho e ver a Miffy! Veio a calhar! Nem de propósito. Ainda há dias tinha dito há Xana que tinhamos que ir um dia destes jogar basket com a Ariana. Agora com tabela em casa vai ser mais fácil. Hoje ainda não se fez o gosto ao dedo. Foi chegar a casa, rasgar o papel do embrulho, correr um bocado pela casa a rir com aquilo na mão gastando o resto das já fracas baterias e aterrar no sofá donde só saiu para a cama.

Diga-se de passagem foi um dia super-cansativo para a miúda. Foi uma dose um bocado forte de mais, logo a começar pela hora a que acordou. Mas o que interessa é que daqui a uns meses o que se vai lembrar é de andar no "comboio grande", de se equilibrar em cima das rochas da praia e correr na areia, de ver uma parafernália de bicharada e de se meter com ela, de comer o gelado com as amigas da mãe e de receber uma tabela de basket. Se alguém lhe disser que estava super-cansada vai-se lembrar tanto disso como eu me lembro da primeira vez que comi caldo-verde. E há-de-se estar a lixar tanto para isso como eu para a minha estreia nos caldinhos.

E para post de "regresso" acho que já vai bem longo. Tenho dito.