Um cachecol novo! (E assim começa o meu blog!)A campainha tocou. A Ariana, num misto de cagaço e curiosidade correu apressada para cima do sofá. Esticou-se ao meu lado a espreitar quem era. "É o carteiro! É o carteiro Paulo!". Não é Paulo mas é carteiro. Também serve.
Eu lá fui ao encontro do mensageiro polar (na última semana é raro o dia em que não vamos aos zero graus ou pelo menos lá perto). Ela à porta, qual cadelinha amestrada, respeitando o limite da tijoleira para o cimento molhado. Esticada, aos saltinhos, com um sorriso curioso de criança.
Para além das cartinhas simpáticas das contas mensais, um envelope gordinho. "É do Tio Ricardo e da Tia Catarina. Vem da Escócia!". Esbugalhou os olhos e começou aos saltos pela sala. "No envelope diz: Para a Ariana, Xana e Jorge. Abrimos agora ou esperamos pela mãe?". Não é que não soubesse a resposta mas fica bem sermos democratas..
"Uau! É um cachecol!". Os olhos da bicha esbugalharam-se outra vez, deu mais umas palmadas no chão com os pés e perguntou para quem era, naquela esperança louca de ouvir o seu nome. "Se calhar é para ti. Temos que ler a carta."
"Bla bla bla bla bla um cachecol para a Ariana". Ao que ela responde com mais um par de olhos a querer orbitar fora da esfera celeste daquela cabecinha desorientada e com um entusiasmado: "E é mesmo!". Claro que a esta altura já o cachecol era dela há muito tempo (mesmo que não fosse), porque desde que saiu de dentro do envelope já ela andava com ele ao pescoço.
Mas a confirmação, ahh a confirmação! Qual Cristiano Ronaldo à espera de saber que, de todos os toscos que sabem jogar à bola mas nunca acabaram de ler um livro, ele é o melhor de todos! Isto era um cachecol para a Ariana! E Azul! E mesmo não sendo acontecimento para ter o mediatismo daquele do madeirense, ela fez questão de fazer a sua parte: "Avó, avó! Tenho um cachecol novo! Foi a Tia Catarina e o Tio Ricardo que fizeram!".Antes da avó poder sequer responder, já o Expresso do Ariente vai a apregoar o nome da próxima estação: "Vou mostrar à bivó Georgina."
Pobre terceira idade. Já não se pode dar descanço às baterias e ressonar um bocado no sofá do quarto. Tem que se levar sempre com um sobressalto de palmo e meio e voz esganiçada. Vá lá, no fim ganhou um mimo.
Acalmou. Mas não esqueceu. Saltou de novo para o sofá agora com um propósito mais definido: "Quero falar com o Tio Ricardo e a Tia Catarina!". Sim majestade, ao seu dispôr! "Mas eles estão na Escócia Ariana." Claro, piadinha! "Mas aí no computador pai! Como no outro dia!"
Fui verificar. Não há sinal de tios nem tias. "Então quando eles estiverem aí chama-me para eu falar com eles". Concordei. E pois cá estamos nós. À espera. Ela de cachecol ao pescoço a passear a vaca pela casa. Eu a rapar frio, de mãos alternadas entre o teclado e uma chávena de roiboos. O jeito que me dava um cachecol de dedos. O jeito que dava.
